Criança tem os olhos na ponta do dedo e, é óbvio, sempre precisa tocar em tudo que existe em uma loja. Se a loja tem objetos de plástico ou de vidro, tanto faz, lá está uma criança olhando com os dedos e sem o mínimo juízo de quanto prejuízo causará a queda daquilo. É a hora em que o responsável deve entrar em ação e enfaticamente dizer “aprenda a olhar com os olhos”.
“Olhar com os olhos” traduz a necessidade de ênfase e de contrapor o metafórico olho do dedo ao real olho da cara. Em nossa oralidade de cada dia, os pleonasmos mostram-se algumas vezes bastante úteis, pois permitem intensificar ou precisar determinada informação. Quando o setor de marketing da empresa usa o famoso pleonasmo “ganhe grátis” ou “ganhe de graça” em alguma promoção, revela bem a preocupação de esclarecer a boa-fé, pressupõe “não vamos enganá-lo”, “será realmente de graça”. Pelo menos, aparentemente.
A duplicação do significado de uma ideia faz nascer o pleonasmo. Ele pode ser classificado em figura de linguagem ou vício de linguagem, o que nas gramáticas se torna a distinção entre o uso considerado correto ou errado. Quando vicioso, trata-se de informação repetitiva e de valor bastante pejorativo em alguns casos, já que revela desconhecimento linguístico ou cultural.
Quem em um momento de nervosismo e destempero não disse um “não fuja, encare de frente”, “saia lá fora agora”, “entre aqui dentro já”… Apesar da vigilância necessária, o pleonasmo nasce, cresce e se multiplica de várias formas. Observe alguns exemplos:
Sobre a falha na máquina, o funcionário previu antes e evitou o incidente.
A empresa conseguiu fechar um acordo de exportação para fora do país.
Fomos nos banhar no pequeno riacho.
Eles tinham uma caligrafia bonita.
Nessa época, a revolta ficou famosa por decapitar a cabeça do rei.
Caso não fosse estancada a hemorragia de sangue, haveria risco de morte.
Isso ocorreu há um mês atrás.
A situação está difícil, mas deve encará-la de frente.
O tronco estava oco por dentro.
Foram acusados ambos os dois.
Foi comemorado o incremento do comércio bilateral entre os dois países.
A causa do acidente foi não ter controlado a ré para trás.
O elo de ligação desses países será a cultura ibérica.
Um pleonasmo muito curioso nasceu das conjunções condicionais SE e CASO. Elas vêm sendo usadas simultaneamente em frases como: “Se caso houvesse falha, deveriam devolver o produto”. O correto é o uso de uma ou de outra: “Se houvesse falha…” ou “Caso houvesse falha…”. Quando ouvir “Se caso eu receber o dinheiro, venho lhe pagar”, desconfie, pois é alta a chance de calote, é muita condição ao mesmo tempo. O correto é “Se eu receber” ou “Caso eu receba”, e não as duas conjunções juntas na mesma construção. Detalhe: usar “Se acaso…” ou “Se por acaso…” está correto e não se deve confundir com a construção pleonástica “Se caso…”.
Outra vítima é o “etc.”, que vem do latim et cetera e significa e outras coisas. O primeiro pleonasmo ocorre com o uso da conjunção “e”, formando “e etc.”. Cria-se aí um pleonasmo bilíngue português-latim, pois o latim “et” é hoje o português “e”. Também há os que usam erroneamente reticências (“etc…”) e há aqueles que não perdoam e, para expressar uma ideia de grande imprecisão, soltam um “etc……….” cheio de pontinhos. E assim se chega ao auge do pleonasmo. Para o “etc.”, a lição gramatical é: antes dele a vírgula é facultativa e o ponto de abreviação é obrigatório.
Os bons costumes da linguagem pedem que sejamos mais comedidos nesses exageros. Entre o escrever e o como escrever nasce o estilo, portanto fique atento à informação desnecessária, supérflua, duplicada. O famoso “menos é mais” aqui se aplica como em nenhum outro contexto.








