É muito comum o brasileiro sofrer com o acento grave, sinal que serve para indicar crase, ou seja, a fusão de “a+a”. Ele é apenas um sinalzinho com inclinação à esquerda, tem seus encantos, porém deixa muita gente boa em situação delicada. Para quem a entende e sabe usá-la, rapidamente reconhece a importância de tal acento, esclarecendo sentidos e funções.
Ferreira Gullar já até brincou dizendo que “a crase não foi feita para humilhar ninguém”. O deputado João Hermann Neto, no ano de 2005, inventou um projeto de lei que extinguiria o uso do acento grave para indicar a ocorrência de crase. É de ver para crer:
“Art. 1 º – Fica extinto o uso do acento grave para indicar a ocorrência da crase.
Parágrafo único – A ocorrência de crase da preposição a com o artigo, pronome demonstrativo e pronome relativo continuará normalmente, deixando apenas de ser indicada pelo acento grave.
Art. 2º – Conceder-se-á às empresas editoras de livros e publicações o prazo de 3 (três) anos para o cumprimento do que dispõe esta Lei.
Art. 3º – Esta Lei entrará em vigor 30 dias após a sua publicação, revogadas as disposições em contrário.” (http://www.camara.gov.br/sileg/integras/304036.pdf)
Falar do acento agudo e do circunflexo, como ocorreu na nova ortografia da língua portuguesa, é coisa bastante distinta de falar do acento grave. Razões muito diferentes justificam a existência deles. Abole-se um acento agudo aqui, um circunflexo lá, mas o grave está muito além de reformas e projetos de lei. A crase exige noções de regência e bom conhecimento morfológico quanto ao uso do artigo e da preposição. Acentuar uma proparoxítona (lâmpada) e acentuar um objeto indireto (referi-me à nova lei) pede esforços cognitivos diferentes.
Quando alguém me pergunta como faz para aprender a “crasear”, digo para começar pelo avesso: primeiro aprenda a não colocar o acento em lugar proibido. Há certas construções em que ele não cabe, pois falta metade: um dos “a+a” não comparece. Por exemplo, o artigo definido feminino “a” não é usado em determinadas situações, o que, por exclusão, nos leva ao raciocínio de que o “a” da construção é apenas a preposição “a”.
Em todas as situações abaixo, não insista, o acento é proibido, pois o artigo definido feminino “a” não pode aparecer. Assim, não ocorre crase antes de:
| ÁREA PROIBIDA DE CRASE |
| 1. palavra masculina |
| O réu foi a júri. Falei a respeito das leis. Ele voltou a bordo. Fomo embora a pé. A operação é a laser. A decisão está a critério de vocês. Escreva a lápis. |
| 2. “a” no singular + palavra no plural |
| Ele conseguiu se formar a duras penas. Ela referiu-se a pessoas estrangeiras. |
| 3. artigo indefinido uma |
| Falei a uma pessoa desconhecida. Não me referi a uma lei específica. |
| 4. pronome pessoal |
| O envio foi feito a ela. Nada falaram a mim. Sempre comunique os fatos a nós. |
| 5. pronome indefinido |
| Não me referi a ninguém. Ele falou a todos. A participação é oferecida a qualquer pessoa. Isso não deve ocorrer a nenhuma pessoa. O prêmio foi enviado a cada pessoa. Tal conflito ocorreu a alguma nação? |
| 6. pronome demonstrativo esta (e variações) e essa (e variações) |
| Remeteu-se o pagamento a essa empresa. Referi-me a esta caneta. |
| 7. infinitivo |
| O prazo conta a partir de hoje. Preço a combinar. Ela começou a ter mais cuidado. |
| 8. pronome de tratamento iniciado por Vossa (ou Sua) |
| Comuniquei a Vossa Senhoria. Avisaremos a Sua Excelência assim que possível. |
| 9. pronomes você, quem e cujo |
| Faleia você. Vi o autor a cuja obra fizemos alusão. Vi a pessoa a quem você se referiu. |
| 10. expressão com palavras repetidas |
| Ficamos face a face, cara a cara. |
A memorização das dez áreas proibidas de crase é decisiva para que não sejam cometidas as falhas mais primárias em relação ao acento grave. Nas provas, a área proibida de crase comparece com muita frequência. Em todos os trechos abaixo, destacamos o “a” com falha. Não pode ocorrer crase, pois apenas se usa a preposição “a”. Observe:
- como um instrumento de poder à favor dos capitais
- mas qualquer reflexão à respeito
- no que tange à doenças ocupacionais.
- seja em aterros ou vazadouros à céu aberto
- deveriam estar submetidos à especialistas
- exposta à agentes
- A palavra ética referia-se à um conjunto de regras
- vou narrar à Vossa Excelência
- TV à cabo
- deixe o carro na garagem e ande à pé
- Pôs-se à chorar
- Não se impute à uma mulher
- sempre sujeitas à alguma revisão
- Quando à cada nova obrigação
- Se fosse a mim, e não à ela
- Apresentam-se à toda vaga oferecida
- não caberá à ninguém
- A capacidade de comunicar é comum à todas as línguas
- Muitos indivíduos são propensos à associar
- Não vai à festas nem à reuniões.
Observe outras duas falhas:


Os substantivos “jato” e “leilão” são masculinos e, antes de palavra masculina, o acento grave é proibido, já que não cabe o artigo feminino. O inglês do anúncio está a jato, mas o português, infelizmente, não.
João Bolognesi é professor de Língua Portuguesa no Damásio Educacional. É mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP, graduado em Jornalismo pela UNESP e em Letras pela Universidade do Sagrado Coração. Autor de obras didáticas voltadas para o ensino de nosso idioma, sempre com destaque aos temas gramaticais e textuais. Desde 1994, é professor em cursos preparatórios para concursos públicos. Também ministra aulas em cursos telepresenciais e de graduação.










