A droga do combate às drogas
28 de Julho de 2010
Publicado por Imprensa
Parece um terreno de areia movediça. Nele é cada vez maior o número de pessoas que se afundam e não conseguem voltar à superfÃcie, movidas pelo transtorno, pelo engano de preferir, muito mais, a droga à própria vida. Isso acontece em nosso paÃs de modo crescente e até o momento não emergiu um plano eficaz do Estado brasileiro que tenha a ventura de proteger a sociedade e livrar do sofrimento as famÃlias atingidas pelo desastre das drogas.
Parece incrÃvel, décadas atrás o Brasil foi capaz de idealizar um programa de combate à AIDS, revestido de êxito, mas até agora, apesar do agravamento, nada que mereça respeito foi feito para enfrentar o tráfico de drogas e sua distribuição à s pessoas. Vê-se que, recentemente, emergiu até mesmo um plano nacional envolvendo o lixo, algo absolutamente necessário, mas que serve para demonstrar a falta de coragem para agir da mesma forma em relação à s drogas.
Dias atrás, o candidato José Serra mencionou publicamente que lhe parece assustador não termos um plano verdadeiro de combate às drogas, porém, por estar envolvido na disputa eleitoral, suas palavras foram tomadas como uma forma de agredir e diminuir seus competidores. Talvez por isso não repercutiram como mereciam.
Em verdade, o que ele disse é a expressão de uma infeliz realidade. Há pelo menos 70 anos entram no Brasil, produzidas no Paraguai, na BolÃvia e na Colômbia, toneladas de maconha, cocaÃna e crack, sem que até o momento tenha sido idealizado um programa capaz de enfrentar esse câncer social, que antes corrompia os adultos, depois os jovens e agora alcança nossas crianças.
Nesse quadro sombrio, é de assustar a conduta de nosso Presidente da República, que vive alisando e passando a mão na cabeça do Presidente da BolÃvia, um confesso produtor de coca, da qual é elaborada a cocaÃna vendida no Brasil e que degrada o tecido social, corrompendo a vontade de milhares de pessoas.
A importância econômica do Brasil e o destaque alcançado no continente permitiriam que o Governo brasileiro se empenhasse num trabalho diplomático de eficácia junto aos paÃses vizinhos para que houvesse um refreamento na produção de drogas. Especialistas dizem que de nada adianta combater internamente a ação dos traficantes se nos territórios próximos à nossa fronteira a droga continua a ser produzida e a entrar impunemente.
Quem milita na área do Direito bem sabe que na raiz de mais da metade dos delitos cometidos no PaÃs está a droga. O adolescente que pratica assalto nos cruzamentos das grandes cidades está desesperado à busca de dinheiro não para jantar com a namorada ou comprar uma roupa, mas para pagar ao traficante, porque, se não pagar com dinheiro, pagará com a própria vida.
A ética no trágico mundo das drogas envolve a confiança de fornecer, fornecer, fornecer e cobrar só depois. Fornecer, todos sabemos, significa criar a dependência quÃmica, aquela pela qual o organismo exige o produto acima de qualquer outra coisa. Esse inferno é proclamado publicamente a toda hora, mas a condenação não tem sido suficiente para afastar o aliciamento de novos viciados.
Desnecessário repetir que o prazer fugaz e enganoso proporcionado pela droga destrói vidas, destroça famÃlias e necrosa gradativa e crescentemente o tecido social. É incrÃvel que isso continue a acontecer tendo como aliados o silêncio cúmplice e a indiferença de governantes, os quais, por sorte, não são eternos.
O pior é que nesse quadro sombrio e desanimador surgem a toda hora, lamentavelmente, como estÃmulos à disseminação das drogas, vozes bastante lúgubres, anunciando, por exemplo, que a maconha não é danosa ao organismo humano. São afirmações que servem apenas para exprimir a inteligência dos que as produzem.
Cientistas britânicos comprovaram cientificamente que o uso de maconha conduz a uma psicose de cura dificÃlima. Essas pesquisas demonstraram que entre dez pessoas, sendo três delas viciadas em maconha, a maneira de ver a vida é diversa: os sete não usuários veem-na de uma forma e os três viciados de forma completamente diferente. É como se esses três viciados fossem seres fora do ninho, desajustados diante do mundo em que vivem. PermissÃveis ao extremo, passam a aceitar qualquer degradação moral com naturalidade e vão afundando na areia movediça, primeiros os pés, depois as pernas, o corpo e, finalmente, a propriamente vida.
A maconha talvez seja a mais danosa de todas as drogas, porque representa o inÃcio do plano inclinado na vida dos que a experimentam. Esforços isolados são feitos pela iniciativa privada, por universidades e associações de classe, todas voltadas para a tentativa de recuperação dos viciados. Na Faculdade de Medicina federal de São Paulo, esses esforços chegam a resultados excepcionalmente animadores, assim como a campanha desenvolvida pelo Centro de Integração Empresa-Escola, também de São Paulo, voltada para a conscientização dos jovens.
Tudo isso é necessário e merece estÃmulo, mas, sem nenhuma dúvida, falta uma ação programada de Governo, um plano, enfim, que alimente a luta contra a produção de drogas. Sem a presença das drogas a criminalidade crescente, que deixa as famÃlias presas em casa, poderá gradativamente arrefecer, criando um clima de esperança em cada um de nós.
Cada vez que vejo, nos jornais e na televisão, a escalada criminosa decorrente das drogas, fico pensando: meu Deus, será que só eu estou enxergando isso? É claro que não, há uma infinidade de pessoas preocupadas e prontas para agir em conjunto, mas falta a ação programada que somente um governo de caráter terá o poder de desencadear.
Enquanto isso não vem, é necessário que cada um de nós, que nos sentimos humilhados e diminuÃdos por essa degradação, junte esforços para cobrar, para exigir mais atenção e mais coragem.
Fonte: O Estado de S.Paulo
Data: 27/7/2010
Publicado em NotÃcias |









28 de Julho de 2010 3:16
Caro Professor Damásio, considerei de todo pertinentes as suas colocações.
De fato, não é preciso uma análise mais profunda para perceber-se que as drogas são fonte direta ou indireta de boa parte dos crimes que tiram a paz de nossos cidadãos e cidadãs.
Faz-se assim necessária a atuação planejada e coordenada do Estado (em suas três esferas) para responder ao avanço impassÃvel do tráfico e consumo de entorpecentes ilÃcitos.
Douglas Santin - Acadêmico do 4.º ano do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal de Pelotas.