Viagem à Inglaterra e à Escócia
26 de Julho de 2010
Publicado por Damásio de Jesus
Hoje, vou quebrar um costume nesta série de artigos em que comento livros antigos e novos, que vou lendo ou relendo em momentos reservados para isso. Após muitas décadas de trabalho incessante, a Providência, na atual quadra da vida, me tem concedido, às margens do caudaloso rio Tietê, algumas horas de leitura.
Tive sempre um gosto muito especial em mostrar, aos meus eventuais leitores, as atrações oferecidas pelos livros que leio, mostrando aspectos positivos das obras.
Confesso que, em alguns deles, aparecem pontos que, subjetivamente, desejaria que fossem diversos. É impossível, por exemplo, ler Dom Casmurro, de Machado de Assis, sem repetir, pela enésima vez, a lamentação que todos os admiradores do Mestre da Cosme Velho sempre fazem: não podia ele, pelo menos, ter deixado uma evidência, como hoje se diz na televisão, um pouco mais clara, para saber se Capitu traiu ou não traiu seu marido Bentinho?
Quem lê Grande Sertão: Veredas e, sobretudo, quem relê essa obra, cujos encantos feiticeiros só se revelam, e, paradoxalmente, ainda mais se velam em dobraduras de mistério, na terceira, na quarta ou na quinta leitura, não pode deixar de reclamar do final trágico de Diadorim. No lugar de uma coluna grega partida daquele jeito, não seria possível um happy end, à maneira hollywoodiana, para aquele imenso amor que tudo, absolutamente tudo, parecia fadar a desfecho menos sangrento?
Essas brechas, ou lacunas, nas grandes obras de literatura não são falhas, mas resultam da intenção clara de seus autores. Eles agem com dolo. Não constituem esquecimento ou vontade de contrariar. Com isso, evitam entregar ao público, prontas e acabadas, suas produções, mas desafiam os espíritos mais atilados e criativos a encontrarem, pela via das críticas e na procura de alternativas, novas e mais recônditas belezas.
A própria linguagem descuidada e não isenta de imperfeições que, por exemplo, Victor Hugo, em Os Miseráveis, nos ofereceu em certas passagens de sua obra, a qual, em sentido oposto, é tão burilada, tão soignée, em outras, dá o que pensar. Digo isso para mostrar que, embora eu, como regra, venha elogiando os livros que, nesta série, sob o título “Estou lendo”, venho publicando, não perdi o senso crítico. Manda a boa praxe que, tratando-se de grandes mestres da Literatura, não se façam críticas baseadas em suposições. As falhas que suas obras têm, ou que nós, não mestres da Literatura, julgamos ver, devem ser silenciadas. Precisam ser encobertas por um silêncio respeitoso e carregado de humildade. Assim tenho sempre procedido. Pois bem, hoje vou abrir exceção.
Acabo de ler um livro, de um grande mestre, o qual me decepcionou.
Quem é esse grande mestre? Que livro decepcionante ele teria escrito?
O grande mestre é ninguém menos do que Júlio Verne, o francês genial cujos numerosos livros literalmente encantaram sucessivas gerações de meninos e adolescentes. Eu mesmo li parte de sua coleção de romances, mais de 100, se não me falha a memória.
Júlio Verne, nascido em Nantes, em 1828, alcançou ainda relativamente jovem imensa notoriedade, especialmente a partir do seu romance Cinco Semanas em Balão, que narra uma travessia pelo continente africano, por balão, de alguns exploradores europeus. Naquele tempo em que a Europa se voltava para a expansão colonialista, a África estava presente no imaginário das sociedades europeias. Tudo o que ela tem de exótico, singular, misterioso, atraía extraordinariamente as atenções. Sob outro aspecto, uma viagem feita por balão, numa época em que a Ciência tanto progredia e o domínio dos ares pela espécie humana parecia prestes a ocorrer, também devia suscitar grande curiosidade.
O mais singular é que, ao lançar esse romance, Verne estava muito longe de imaginá-lo um sucesso de vendas. Pelo contrário, julgava-o mais um fracasso. Conta-se que, até então, todos os seus livros tinham sido sistematicamente recusados pelos editores, que não viam mérito nem possibilidades de sucesso em nenhum deles. O próprio manuscrito de Cinco Semanas em Balão já havia sido desprezado, segundo consta, por nove editores. Verne já estava a ponto de jogá-lo no lixo quando sua esposa insistiu para que tentasse mais uma vez. Sem grandes esperanças, Verne mandou o volume para esse décimo. Para sua surpresa, o editor aceitou fazer uma pequena tiragem. Lançada, para espanto geral, produziu uma verdadeira coqueluche. Esgotou-se rapidamente e foi reeditada sucessivas vezes. Tinha início, assim, a carreira fulgurante do escritor Júlio Verne. Até falecer, em 1905, gozou sempre da maior celebridade.
As obras do grande escritor, incluindo textos inteiros ou rascunhos de livros e novelas, foram conservadas por seus herdeiros durante quase um século. Somente em 1981 a municipalidade de Nantes conseguiu adquirir, por uma soma muito elevada, os manuscritos de seu mais ilustre filho; 26 empresas se cotizaram para levantar os fundos que permitiram essa aquisição. Um dos objetivos da nova proprietária era, aos poucos, publicar a produção inédita de Verne.
Quando soube que um título havia sido lançado, Viagem à Inglaterra e à Escócia, logo me interessei. Conhecendo as descrições fabulosas que o autor fez de povos remotos, imaginei que se tratava de um romance ambientado nas brumosas Terras Altas da Escócia, ou numa encantadora vilazinha do country britânico. Imaginei um enredo em que houvesse interessantes descrições geográficas, explorações psicológicas, caracterização de tipos humanos muito marcantes e também elementos de aventura, de risco, sempre entremeados com surpresas agradáveis e inesperadas. Lembrei-me da revelação, somente feita no fim do livro, de que Miguel Strogoff não ficara cego, ou de que o fabuloso diamante desaparecido fora, na realidade, engolido por um avestruz, em cujo estômago, por efeito do calor, adquiriu uma tonalidade rósea que fez multiplicar muito seu já incalculável valor…
Eu esperava, desse livro, algo de Robert Louis Stevenson – o autor de A Ilha do Tesouro e Raptado – ou de Walter Scott, mas com uma nota característica mais peculiar a Júlio Verne. Para minha decepção, porém, encontrei um relato de viagem seco e sem graça, historiando nos mínimos pormenores as andanças de dois franceses pela Inglaterra e pela Escócia. Nenhuma aventura, nenhum romance de amor, nenhuma imaginação… Dir-se-ia um penoso e aborrecedor exercício de redação, por parte do autor, seguido de um também penoso e aborrecedor exercício de leitura, de minha parte…
Nessas poucas semanas de julho de 2010, que me dei como férias, reservei algumas horas, à noite, para ler com atenção todo o texto, à procura de algo que me assegurasse não estar perdendo tempo. E acabei encontrando.
A leitura de Viagem à Inglaterra e à Escócia me confirmou a certeza de que todo grande escritor é, sobretudo, o resultado de seu esforço. Somente trabalhando muito o próprio estilo alguém pode deixar as raias do primarismo e da mediocridade, em matéria de literatura, e chegar aos galarins da fama.
Esse livro apresenta o que, inicialmente, era Júlio Verne. Mostra como ele precisou trabalhar, polir seu estilo, desenvolver melhor seu pensamento e sua capacidade imaginativa, até se tornar o grande Júlio Verne. Lendo essa medíocre produção de sua mocidade, ainda mais passei a admirá-lo por ter sido capaz de chegar onde chegou.
Grande Júlio!…
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26 de Julho de 2010 10:11
Prof. Damásio,concordo com o sr. Alguns autores começam escrevendo de forma medíocre e com o passar dos anos se tornam célebres, e outros realizam o inverso, de célebres para medíocre.
Abraço.
26 de Julho de 2010 1:22
Prezado Damásio:
Apesar de eu não ser leitora assídua de Júlio Verne sei que ele era antes de tudo um estudioso.Pesquisava muito antes de escrever.
Dele gostei de “O raio verde” (que se passa na Escócia), cuja busca por vê-lo até hoje me fascina.
É muito gratificante ler seus comentários literários,
Grande abraço,
Anna.
Anna Cláudia:
Obrigado pelas palavras, que me incentivam a ler e escrever sobre o que leio.
Abraços.
Damásio