As maçãs envenenadas e a criminalidade
26 de Julho de 2010
Publicado por Damásio de Jesus
Há alguns anos, na festa de aniversário de uma amiga das minhas netas, contrataram um palhaço que, no meio da sua apresentação, resolveu dar às crianças belas maçãs, bem vermelhas e brilhantes. Nenhuma delas quis aceitar o presente. Razão: a história infantil da maçã envenenada que vitimou Branca de Neve.
Li nos jornais que, no aeroporto de Guarulhos (SP), bandidos quiseram contrabandear uma grande partida de maçãs. Até aÃ, um simples crime de descaminho ou contrabando. Ocorre que as frutas estavam recheadas de drogas. Crime grave!
Triste sina a da maçã! Mais uma vez, assisti ao fato de que o passado – de algo ou de alguém – pode pesar no conceito que se pretende possuir. De outro modo, como entender o olhar atento e, sobretudo, desconfiado dos funcionários do aeroporto dirigido a cobiçáveis maçãs retratadas em fotos coloridas em caixas inocentes? Vi uma das fotos. Por que eles não se enganaram com aqueles caixotes de frutas? O que tinham eles de diferente para chamar a atenção da polÃcia? Não sei, porque os tempos são outros.
Não deu outra: um carregamento inteiro da fruta, tipo exportação, pronto para o embarque para a Europa, foi apreendido e investigado. É verdade. Nos dias atuais, não se pode dar crédito nem a maçãs. Fruto por fruto, todos estavam recheados de drogas. Resultado: cadeia para os exportadores por causa das “mulas”.
Outra vez a maçã! Triste sina! Afinal, numa história que minhas netas me contaram supondo que eu não a conhecesse, ela também ocultou uma substância sonÃfera, enfeitiçando uma bela jovem, sem lhe dar condições de defesa. Ao contrário, a bruxa acenou com sorrisos exibindo a fruta irresistÃvel. A moça cor da neve, encantada, aceitou-a e a mordeu, caindo em seguida como morta¹. Foi ludibriada.
Naqueles dias, era impossÃvel à protetora dos sete anões ter conhecimento do estudo realizado pelo Núcleo de Pesquisa em Alimentos Funcionais da PUC-RS, mesmo porque ele ainda não existia. Dos elementos usados na perÃcia, os pesquisadores conheciam as maçãs e as moscas que delas se alimentam e usam o nome, mas não sabiam, nem eu, do fato de que os pequenos insetos consumidores vivem 30% mais do que aqueles que não apreciam os frutos das macieiras. E 30% de vida é vida “pra chuchu”, como dizia meu pai Antônio. De qualquer modo, não foi pelas substâncias antioxidantes nem por prevenir radicais livres que a pobre Branca caiu na lábia da bruxa.
No episódio do Gênesis (3, 1-19), não há como comprometer a maçã. Em nenhum momento ela é mencionada. Fala-se num fruto proibido produzido pela árvore que estava no meio do jardim do paraÃso. Javé, Adão e Eva, cada qual a seu tempo, referem-se ao fruto de uma árvore chamada “Ãrvore do Conhecimento do Bem e do Mal” (Gn 3,16). Se assim é, por que teria a maçã atraÃdo tal estigma? É chamada até hoje, por alguns, de fruto do pecado e, o que é pior, fruto que induz ao pecado. E pecado poderia ser tema – como tem sido – de tratados sem fim.
Minha intenção é tentar, pelo menos nesse caso, livrar um pouco a cara da maçã. Primeiro, porque ninguém fala nela naquela terrÃvel inquisição feita por Javé aos habitantes do recém-criado Éden. E, segundo, porque o pecado de Adão e Eva nada tem a ver com a prática sexual. Cuida-se muito mais de um pecado, se assim o aceitarmos, relacionado ao orgulho do homem. De qualquer forma, o registro serviu para notarmos uma fraqueza humana tão presente em nossas vidas, mesmo nos tempos atuais: a não assunção da responsabilidade por atos indevidos praticados. Senão, vejamos:
– “Quem te deu a conhecer que estavas nu? Comeste acaso da árvore da qual te ordenara que não comesses?”.
Respondeu o homem:
– “A mulher que me deste por companheira foi quem me deu da árvore e eu comi”.
– “Que fizeste?”, perguntou Javé à mulher.
– “A serpente me enganou e eu comi“, disse ela.
A fim de conferir certo glamour à maçã, neste momento de infortúnio em que é usada para transporte de drogas, e de mostrar a sua importância até para a criminalidade internacional, vale lembrar um ditado antigo no show business americano:
“There are many apples on the tree, but only one Big Apple.”
É, não importa que seja apenas uma maçã. Se ela é grande a ponto de se transformar em sÃmbolo do maior centro financeiro e cultural do mundo, então vale a pena. Afinal de contas, não é todo dia que encontramos uma fruta simbolizando uma cidade como Nova York, não é?
Ah, que saudades dos tempos das maçãs do amor!
[1] Guardada pelos anões dentro de um caixão de cristal, sem dúvida contra a vontade do Dunga e deixando Zangado muito zangado, assim ela permaneceu até que um prÃncipe a beijou e, naturalmente, a trouxe à vida…
Publicado em Reflexões |









26 de Julho de 2010 11:32
Talvez seja pela beleza da maça. Ãs vezes fico algum tempo contemplando à quela maça vermelha antes de degustá-la. Sem dúvida é um belo fruto, além de saboroso e extremamente saudável. É um dos meus favoritos.
Abraço.