9 de Janeiro de 2009

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Damásio de Jesus
Hoje eu quero viajar no tempo. Falar das travessuras do Bepe e do companheirismo que tanto pontuou nossas vidas na infância, lá em Cerquilho, no interior de São Paulo.
Minha cabeça hoje está a mil por hora. Acordei pensando em Bepe. Quero descrevê-lo. E penso que o melhor jeito, nesse caso, é começar com uma pergunta. E daquelas bem diretas, para não restar a menor dúvida sobre essa tal criatura. Então lá vai.
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26 de Novembro de 2008

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Damásio de Jesus
A década de 1940 conheceu uma grande movimentação de imigrantes vindos do Oriente Médio para o interior paulista. Mantinham, nas cidades, lojas de tecidos, armarinhos e miudezas em geral. Era o comércio ambulante, porém, o forte de suas atividades, daí a denominação mascates. Genericamente, eram conhecidos como turcos, muito embora nem todos fossem originários da Turquia. Muitos vinham da Arábia; outros do Líbano, da Armênia, da Síria etc. Havia até gregos sendo chamados de turcos. Entre os garotos, ganhava o apelido de Turco qualquer um que guardasse feições árabes.
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26 de Setembro de 2008

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Damásio de Jesus
Trata-se de uma sala ilusória. Assim como os casos que ela guarda, também é de mentira. Essas invencionices acumularam-se no imaginário do Zinho, apelido que, como vocês sabem, ganhei quando criança, justificando meus medos e fantasias. Contadas pelos mais velhos, ganhavam ar de verdade e, algumas delas, eram instigantes e fantasmagóricas. Às vezes, a gente pegava a evidência da invenção e apertava o “contador do causo” com embargos declaratórios, para que desse explicações satisfatórias. Ele, então, gaguejava, papagueava e quase sempre escapava pela tangente. Daniel, Nié para os íntimos, tio muito próximo de nós, quando narrava as “cabeludas”, enfeitava as lorotas. Dava força ao contador da hora. E este chamava à colação o seu precioso testemunho:
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24 de Setembro de 2008

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Damásio de Jesus
Certa vez, tio Daniel começou a contar a história da Mula-sem-cabeça, também chamada Burrinha de Padre, por ter se envolvido vergonhosamente com um sacerdote. Aliás, há um romance novo entre um pároco brasileiro e uma mula, fato noticiado em todos os jornais, ao qual recomendei que se case com a amada.
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6 de Agosto de 2008

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Damásio de Jesus
Entre os estrangeiros que praticavam o comércio intenso por aquelas bandas de Cerquilho, além dos turcos, estavam os judeus, que tinham um comportamento diferente, mais arredio, mas igualmente hábeis ao oferecer o seu peixe. Aqueles que vinham à cidade eram chamados mascates, fazendo venda de porta em porta.
Os moleques adoravam ficar observando a chegada do trem da manhã que vinha de São Paulo e trazia aqueles homens vestidos com ternos baratos, carregando grandes malas de viagem em cada mão e batendo nas portas das casas. Seguindo-os, observávamos de longe um quase ritual: a dona da casa abria a porta, atendia e, às vezes, recebia-os na varanda para nosso deleite. Víamos de longe tecidos coloridos, jogos bordados, leques, pós e loções de toda espécie, sapatos, tudo, enfim, passando pelas mãos das moçoilas casadoiras e de suas mães ansiosas. De casa em casa, as malas iam ficando mais leves e, no final do dia, acompanhávamos de longe os judeus e turcos, que se dirigiam para a estação ferroviária, retornando a São Paulo.
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16 de Junho de 2008

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Damásio de Jesus
Lá de Cerquilho, tio Daniel e Tia Veva são figuras tão presentes na minha infância que, ao final da leitura de algumas histórias que tenho contado, você os conhecerá quase tão bem quanto eu. Inesquecíveis, suas figuras humanas, além de suas histórias, permeavam os acontecimentos que, com ternura e, às vezes, delicada ironia, nos envolveram. Pois essa história também aconteceu com eles. E ocorreu no sítio, palco de tantas e tão boas lembranças.
A propriedade dos meus tios, embora pequena, não deixava nada a desejar. Tinha roça de milho, pomar, horta, cavalo, vaca leiteira, porcos e até uma casa de pau-a-pique com fogão de barro! Tudo era muito bem cuidado pelo casal. Tia Genoveva fazia de conta que deixava tio Daniel tomar as providências relativas ao trabalho, como cabeça da casa que ele era. Na verdade, porém, de forma direta ou indireta, intervinha, direcionava e, quando alguma coisa era feita sem o seu consentimento, estava fadada ao fracasso.
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14 de Maio de 2008

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Damásio de Jesus
Bepe, meu tio, era o amigo ideal para um molecote de 7 anos como eu: bastante grande para me proteger quando íamos brincar longe de casa; suficientemente criança, apesar dos seus 14 anos, para gostar de brincar com o menino Damásio, o Zinho. Ria à beça quando brincávamos de bandido e mocinho, eu este e ele aquele. Com um revólver de madeira na mão, feito por nós mesmos, apontava para ele e dizia que os meus dedos estavam tremendo. Parando de rir, fazia cara feia e simulava sacar um revólver. Eu, ligeiro como Roy Rogers, herói do cinema far-west daquela época, atirava várias vezes. Ele, simulando, estatelava-se no chão. Era uma glória!
Naquela tarde, Bepe entrou pela porta da cozinha anunciando a programação do dia seguinte: empinar papagaio, pipa, no largo existente na frente do cemitério. Para isso, já trazia nas mãos dois carretéis de linha de número 5 e quatro folhas de papel de seda, duas com dois tons de azul e duas com os dois tons da bandeira, verde e amarelo, comprados no boteco “Gato Preto”, que vendia de tudo, de rapadura a remédio contra dor de cabeça. Trazia, ainda, duas latinhas vazias de massa de tomate que havia ganhado do seu Lico, dono do único restaurante e pensão da cidade. Bufando pela corrida até em casa, tio Bepe achou que devíamos ir já, em seguida, pegar os bambus para varetas e a fruta da árvore de Santa Bárbara, cuja goma se prestava muito bem para colar os papéis entre si e eles nas varetas.
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7 de Maio de 2008

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Damásio de Jesus
No sítio do tio Daniel, eu gostava de ir à mangueira, onde, de tardezinha, quando o Sol se punha, o gado era recolhido para passar a noite: nada mais do que dois bois, duas vacas e dois bezerros. Princesa, a mula, e um velho cavalo baio também voltavam do pasto.
Lá íamos nós recolher os animais, pois, todos os dias, a tarde se finda e a noite fresca e mansa logo vai assumir o seu papel, trazendo no bojo uma brisa com aromas variados, vindos das mais diversas flores do campo.
O velho tio convidava-me a tanger os animais com uma varinha. Com sentimento de poder, eu iniciava a tarefa de peito estufado, orgulhoso de partilhar com ele o trabalho, de mostrar que já sabia fazer as coisas. Lá ia eu, Damásio de Jesus, moleque de calças curtas, com sete anos e ignorante quanto ao futuro incerto que me esperava, a dar varadas carinhosas nas pernas e no lombo dos cavalos e dos bois, conduzindo-os a caminhar mais depressa.
No trajeto, cruzávamos com bandos de quero-queros e garças, levantando vôo de volta aos seus criadouros. Havia periquitos e papagaios em sua última algazarra sonora. E as borboletas passavam rápidas à procura de um abrigo seguro.
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18 de Março de 2008

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Damásio de Jesus
Nos meus tempos de menino, em que nunca fui “mariquinha”, e continuo não sendo, brincávamos de roda, de bandido e mocinho, montados em cavalos feitos de pé de milho, de “abafa”, com saquinhos de pano com pedrinhas, de soltar bolhas de sabão, de jogar “burca” (búrica), peteca, de rodar pião, pique-salvo e empinar pipa. Coisa de menino pobre. Hoje, a garotada tem até celular que só falta falar. Agora, sem pestanejar, responda: o que é talha?
Acabou o tempo. Se você não sabe o que é Volatinia jacarina, do qual falarei em outra ocasião, vai saber o que é talha! Pois bem. Para quem não a conhece, para quem nunca a viu, talha é um vaso de barro, de boca grande, usado por quem não tem torneira em casa, geladeira ou mesmo um simples filtro. É um pote confeccionado de modo artesanal e serve para guardar água. Nela, a água fica geladinha e, ainda mais gelada, se for servida em caneca de alumínio, daquelas bem amassadas. Doem os dentes, mas é uma delícia. Não bebo água de talha há anos, mas ainda sinto o gosto dela em minha boca até hoje. Usei e abusei de água de pote quando era menino, principalmente na casa do tio Daniel. Na verdade, não era meu tio. Era irmão da minha vó Lili e tio de todo mundo. Gente grande e pequena chamava Daniel de tio; até os vizinhos. E ponto final.
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5 de Março de 2008

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Damásio de Jesus
Na cidade de Cerquilho, perto da casa de Lili, minha vó materna, morava Saturnino, que apelidamos de Nino Louco. Na verdade, nós o chamávamos de Nino “Loco”, sem o “u” intermediário. Falava pouco, apenas balbuciando palavras, mas dava para entender. Pelo pouco que nos contava, nos intervalos lúcidos, devia ter seus 35 anos de idade. Dizia que tinha sido filho de gente rica em outras plagas, lá no Sul do País. Rapaz estudado, noivo de uma linda moça, Anália, da família Florenço. Amavam-se, segundo ele.
No dia do casamento, sua noiva suicidou-se, sem que ninguém soubesse a razão. Desde então, contava, perdeu a dele; fugiu de casa e de tudo. Foi parar em Cerquilho, onde passou a ocupar um cômodo no quintal do Abdalla, turco bom. Não pagava aluguel e vivia da bondade dos vizinhos, especialmente da de Lili.
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